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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Sobre falácias

É a segunda vez que comento aqui, no Diário da Cratera Urbana, um texto do “Espaço do Leitor” do jornal A Razão. E, pela segunda vez, o autor é formado em Direito. O que há de comum nos dois casos é a utilização equivocada de um argumento jurídico – em verdade, a distorção do texto legal na tentativa de “adaptá-lo” aos fatos. Na coluna de hoje, a advogada Márcia Elisa Zappe, defendendo a inconstitucionalidade das cotas raciais no vestibular da UFSM – tese já vencida em todos os tribunais –, citou um dispositivo constitucional:
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A Resolução
[que instituiu a política de ações afirmativas na UFSM]
afronta diretamente um dos direitos fundamentais do Estado Democrático de Direito, reconhecido pelo artigo 5°, inciso II, da Constituição Federal, segundo o qual “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.
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Qualquer pessoa pode encontrar um inciso, alínea, parágrafo entre os 250 artigos da Constituição Federal e dar-lhe a interpretação que aprouver a seus interesses. Contudo, quando o intérprete informa o conteúdo verdadeiro das leis – que é de “clareza solar” – e assina como advogado, a interpretação, ainda que absurda, assume outra conotação. É a velha falácia de autoridade.

Acreditam alguns advogados que aquele número de inscrição na OAB sob o nome, auxiliado por termos do mais puro e hermético juridiquês, são suficientes para transformar suas opiniões – ou preconceitos – em regra. O artigo publicado no A Razão de hoje é claro exemplo disso. A tese defendida pela autora é grotesca; o dispositivo constitucional citado não tem qualquer relação com o assunto e os demais argumentos demonstram absoluta ignorância de conceitos básicos de Direito Constitucional e Administrativo. No final, é reforçado o mesmo chavão cansado: “raça não existe cientificamente”.

Ou seja, a autora desconhece o assunto que está tratando, confunde os objetivos das ações afirmativas e não tem a mínima idéia dos conceitos “científicos” de raça ou racismo, oriundos da sociologia e antropologia. No entanto, acredita que o termo “advogada” sob a assinatura lhe dá autoridade para dar a palavra final sobre o tema. Nossa pobre categoria... tão ignorante e tão arrogante!

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Em tempo: a decisão liminar do juiz de Santa Catarina que suspendia a reserva de vagas no vestibular da UFSC foi derrubada pelo Tribunal, assim como todas as outras até aqui.
۰ Sobre o argumento da "ilegalidade" da Resolução que instituiu a política de cotas no vestibular da UFSM: Cotas: um impasse longe de ser resolvido

O povo do centro apoiou o protesto dos camelôs

Na última terça-feira, num prenúncio do que será a mudança dos camelôs para o dito shopping popular, o centro da Cratera Urbana foi agitado por um protesto de vendedores informais. A causa, segundo a reportagem do Diário de Santa Maria, foi a operação da Brigada Militar que apreendeu mercadorias contrabandeadas.

Normalmente, a polícia age quando os comerciantes fizeram investimentos maiores e estão com os estoques recheados. (Ou quando a propina está atrasada, não sei.) O certo é que as tais “ações de combate ao contrabando” ocorrem de tempos em tempos, sem qualquer regularidade e entremeadas por longos períodos de tolerância.

O caso é paradigmático de uma situação bastante comum e sugere uma reflexão interessante. Há condutas que, embora definidas pela legislação como ilícitas ou, no mínimo, irregulares, são amplamente aceitas pela população, gozando de certo respaldo do Direito Consuetudinário. A venda de mercadorias ditas piratas, embora combatida por campanhas publicitárias caríssimas, não é uma prática rejeitada pela sociedade – ainda que possa sê-lo por algumas camadas sociais. A burguesia comercial torce o nariz, as autoridades fingem que não vêem e o povo adere entusiasticamente.

As bissextas ações repressoras é que são repudiadas, como demonstrou o amplo apoio popular à manifestação dos vendedores ocorrida esta semana. Além de fazer crer que a população não reconhece a reprovabilidade da prática – a qual, em tese, é inerente às condutas ilícitas – a reação dos transeuntes ao protesto demonstra que o comércio informal nas ruas centrais faz parte de uma rotina, de um circuito sócio-econômico identificado com a cultura das pessoas que utilizam aquele espaço, gerando, inclusive, laços de solidariedade.

Há tempos, discutimos aqui a permanência do camelódromo no canteiro central da Av. Rio Branco. Alguém (o autor queira manifestar-se, por favor) argumentou que aquele comércio já fazia parte da cultura do centro da cidade. Creio que a adesão popular ao protesto dos vendedores ambulantes é um forte indício de que o pitaco anônimo acertou na mosca.

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• Fotos de Marina Chapinotto / DSM

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Acesso restrito


Os estacionamentos com acesso exclusivo a determinadas pessoas são comuns nos prédios da UFSM. A justificativa para a "privatização" - totalmente irregular, diga-se - é a "invasão" de automóveis e ambulâncias que trazem pacientes ao Hospital Universitário. Na falta de uma infra-estrutura adequada no HUSM, os motoristas acabam lotando os estacionamentos dos Centros de Ensino mais próximos. Durante o primeiro dia de vestibular, embora os donos das vagas estivessem bem longe da UFSM, os estacionamentos permaneceram fechados - e vazios. Enquanto isso, vestibulandos, sem ter onde estacionar, estavam presos no engarrafamento quilométrico. A Cratera Urbana e suas cancelas...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O caos da incompetência

O vestibular da Universidade Federal é, seguramente, o maior evento anual de Santa Maria, que, nesta época, recebe milhares de vestibulandos e familiares vindos de todo o Estado e de fora dele. Muitos estão na cidade pela primeira vez.

No ano passado, quando da realização do concurso, escrevi um pequeno artigo dizendo que os postulantes à vaga na UFSM tinham uma amostra, durante o vestibular, de uma das principais agruras da vida universitária: a péssima qualidade do transporte coletivo. Além da superlotação e dos atrasos, a falta de orientação e indicações mínimas transformava a tarefa de pegar o ônibus uma arriscada aventura para pessoas que não conheciam bem a cidade.

Pois bem. Este ano, apesar do número de inscritos no exame ter diminuído consideravelmente e da possibilidade de serem realizadas as provas em outras cidades, a situação piorou. A imprensa local mostrou hoje cenas de uma multidão de estudantes correndo na beira da rodovia, invadindo prédios da universidade, brigando com fiscais e muito mais.

O trânsito no campus e nos seus acessos ficou congestionado nas horas que antecederam ao início do vestibular. Não havia onde estacionar e os estacionamentos de certos prédios estavam fechados. Os ônibus não eram suficientes para a demanda. Os vestibulandos saltaram dos carros e ônibus a quilômetros dos locais de realização e correram. Uma menina caiu, cortou um joelho, levantou e seguiu correndo. Alguns, ao perceberem que já havia chegado o horário, desistiram e tiveram crises de choro. Outros se atracaram com fiscais de provas e abriram as portas à força [nota do redator: esses virão para o Movimento Estudantil]. Em síntese: o caos.

O início do exame foi adiado em quinze minutos, por decisão da COPERVES – o órgão que organiza (ou deveria organizar) o vestibular. Ainda assim, muita gente ficou de fora.

A pergunta: isso foi surpresa? Não, não foi. As causas não são nenhum mistério : o acesso único, no famoso “arco”, o fluxo concentrado em uma avenida central estreita, os estacionamentos “privatizados”, o transporte coletivo municipal deficitário e concedido a vigaristas. Todos esses problemas são enfrentados diariamente por quem trabalha ou estuda no campus de Camobi. Nas discussões do Plano Diretor dos campi, eles foram reiteradamente mencionados pela comunidade universitária.


Espero que, ao menos, esse fiasco sirva para que determinados setores da UFSM compreendam porque é importante que a instituição tenha (e obedeça) um Plano Diretor da Cidade Universitária.
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• fotos de Charles Guerra / DSM
• mapa do campus: página da UFSM


domingo, 9 de dezembro de 2007

Arte de vanguarda na Gare

Algumas iniciativas de vanguarda em Santa Maria justificam o título de "Cidade Cultura". Esta é uma delas. O pessoal do OAM (ateliê de Objeto-Arte e Multimeios, do curso de Artes Visuais da UFSM) vai expor seus trabalhos na Gare da Estação Férrea a partir do dia 10 de dezembro, às 19h.

A professora Tetê Baranchini, orientadora do OAM, apresenta a exposição:
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Os trabalhos desta exposição são pesquisas que direta ou indiretamente perpassam as questões pertinentes ao “objeto”, pois não se pode pensar em arte contemporânea apenas no sentido de revisão da modernidade, mas se faz necessário colocar-se de forma incisiva nas poéticas os rompimentos de um tempo que já é posto.

Neste sentido torna-se perceptível a liberdade que se faz presente nas escolhas de suporte ou de linguagem aqui apresentadas. Existem os que se aproximam do bidimensional, assim como aqueles que se entregam ao espaço, e por vezes ao corpo, convidando o espectador a compartilhar de forma mais efetiva em suas ações. Mas todos buscam como objetivo o estranhamento perante o que esta estabelecido e firmado.
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Quero destacar que a escolha do local da exposição é um dado muito importante. A Gare da Estação é um espaço extremamente popular, além de ter um forte conteúdo histórico. Gostaria de ver essa possibilidade de interação da arte de vanguarda com a cultura popular se repetir mais vezes. Talvez fosse o caso de um projeto permanente no local, mesclando a produção artística acadêmica e da população, permitindo o diálogo entre ambos. Além disso, um projeto desse tipo poderia combater a absoluta falta de alternativas culturais na cidade (especialmente para a população não-universitária), já que os poucos espaços existentes são altamente restritos.

Só para dar uma idéia do teor da exposição, veja alguns dos trabalhos, com a apresentação dos próprios autores:

Anelise Witt: "Banner do frame 212 do vídeo Live TV"


Assim como a televisão tornou-se “onipresente”, o indivíduo que ela, enquanto a grande difusora de imagem e informação “cria”, também torna-se onipresente, não por possuir poderes paranormais, mas gerar indivíduos-padrão tanto aqui quanto lá.

Mônica Spohn: "Ação_RoupaMeia I"

A exibição não é necessariamente pública, ela é, antes de tudo, essa intimidade do corpo oferecida ao olhar do Outro. É preciso distinguir as maneiras de mostrar-se e a vontade de fazê-la como um ato estético. Este é o meu corpo, meu corpo real, que se torna representado e exibido através da auto-imagem fotógrafica.
Micheli Daronchi: "Corpo/ Acesso"


A descoberta do mundo, a experiência deste assim como todo
conhecimento efetuam uma passagem obrigatória por nosso corpo; nisso,
nosso corpo é um lugar de passagem.
Marcelo Forte: "Particípio, presente do infinitivo"
Oque vocês fazem quando estão juntos?
Vocês pensam? Não, a boca não deixa.
Vocês falam.
O que só vocês podem entender.
Raugoshi (s/ título)

Cores vibrantes e sonoridade de midias criam espaços de "lazer" , nesses o público tem a oportunidade de desenvolver a relação humor/participante através das diferentes formas que a ação da estrutura pode tomar perante o desenvolvimento do público junto a ela.

Kalinka Mallmann: "Série e/ou"


Você escolhe, manipula e olha.

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A exposição fica na Gare até a primeira semana de janeiro. Programa obrigatório.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Pé na porta de Yeda


Em agosto deste ano, uma caravana de moradores da Nova Santa Marta e outras comunidades da cidade foi a Porto Alegre recepcionar o presidente Lula, para um ato que concretizaria o resultado de anos de luta, principalmente através do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Santa Maria havia sido contemplada com 121,8 milhões de reais do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) que seriam destinados à urbanização e regularização fundiária de diversas antigas ocupações e vilas. Dentre elas, a que receberia a maior parcela dos recursos seria a Nova Santa Marta.

Naquela ocasião, três meses atrás, Yeda Crúsius esteve presente à solenidade de lançamento do PAC no Rio Grande do Sul. Em relação à cidade, a contribuição do governo estadual ficaria limitada à cessão da área da Cohab Santa Marta à Prefeitura Municipal. Desde a cerimônia até o momento, entretanto, quatro datas foram marcadas para a transferência do imóvel e todas adiadas por “problemas de agenda da governadora”.

A paciência dos moradores da Santa Marta se esgotou. Temendo perder os recursos, uma multidão, organizada pelo MNLM, ocupou o escritório da Cohab. O movimento exige um documento oficial de Yeda, fixando uma data para a realização da transferência da área. Desde ontem, quem telefona para o escritório é atendido pelo líder da manifestação e do MNLM, Cristiano Schumacher (foto): “Escritório da Cohab invadido, boa tarde.”


- Fotos de Charles Guerra/RBS

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O legislativo e a moral



Às vezes tenho a impressão de estar vivendo no meio do século passado, antes ainda da Revolução Sexual. A "moral e os bons costumes da família brasileira", de vez em quando, ressurgem do nada. Duas casas legislativas conseguiram, quase que simultaneamente, fazer um gesto idêntico em relação à expressão artística. A Câmara de Deputados e a Câmara de Vereadores de Santa Maria censuraram obras que continham nudez ou alusão a sexo.

Em Brasília foi a foto de Rogéria, uma das mais conhecidas transformistas (não sei se este é o termo mais apropriado) do Brasil, exibindo parcialmente sua nudez (veja mais no G1). Na Cratera, o problema foi uma exposição de desenhos cuja temática era "sexo". O estudante de Artes Visuais, Vinícius Luge, por e-mail, informa o que ocorreu:

Semana passada iniciou uma exposição na câmara de vereadores com a temática "sexo". Na quinta, a Magali e a Anita (vereadoras) tiraram um dos desenhos e sentaram ao lado em sinal de protesto, pois o mesmo segundo elas seria indecente. O problema além da truculência foi a instalação de um tipo de censura na Câmara, não é dado a opção dos outros decidirem se é ou não impróprio, tal ou qual desenho, as defensoras da moral decidem pela sociedade. O dito desenho foi censurado, retirado da exposição pela câmara.

Vinícius informa ainda que, em função do ato, haverá um protesto às 11h da manhã de hoje, em frente ao legislativo muncipal craterense. Essa é a cidade cultura.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Nota

Recebo a informação, pela assessoria do Prefeito Municipal, que a rótula da Avenida Rio Branco (foto na matéria anterior) vai ser custeada pelo Royal Plaza Shopping e executada pela Prefeitura. O assessor informa ainda que o Carrefour prestou contrapartida de 1,2 milhões, que serão utilizados na reforma do Cine Independência para abrigar o "Shopping Popular", como eu, aliás, já havia dito aqui. Menos mal. É sinal de que nossa Administração descobriu o Estatuto da Cidade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Curtas

Algumas notícias do dia (livremente comentadas por este redator):

A Prefeitura Municipal de Santa Maria anuncia grandes mudanças na infra-estrutura urbana para desafogar o trânsito. É perceptível que a frota de automóveis da cidade aumentou substancialmente em pouquíssimo tempo (alguns apontam crescimento de 1/3 nos últimos anos), contudo, a maior razão para as reformas é a instalação de grandes empreendimentos comerciais, como o Carrefour, na Avenida Rio Branco, e o Royal Plaza Shopping, na Avenida Dores (ambos instalados em locais inadequados do ponto de vista urbanístico). Minha pergunta: não deveriam tais investimentos ser custeados pelas empresas, como contrapartida por sua instalação? Como sempre, pagamos para que elas tenham lucro.
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Enquanto isso, duas das maiores multinacionais do ramo de supermercados, a Wal-Mart e a Carrefour, brigam pelos corações (e pelo dinheiro) dos gaúchos. A primeira é dona da antiga rede SONAE (Big, Nacional, Maxxi Atacado) e a segunda de vários hipermercados, sendo que o mais novo deles deve ser inaugurado nos próximos dias no centro da Cratera Urbana. As grandes redes exploram funcionários, acabam com o comércio local, geram prejuízos urbanísticos e se valem dos recurso públicos, mas deixam a gente com cara de "cidade grande"... parece até filme americano...
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Ao menos, os investimentos em infra-estrutura já não se limitam ao centro da cidade, nem se destinam exclusivamente a facilitar a vida das multinacionais. Ontem, na Vila Ecologia (na antiga área verde do Parque Pinheiro Machado), tiveram início as obras de saneamento custeadas com a (baita) verba do PAC. Claro que o jornal local da RBS preferiu destacar o início de outra obra: a construção de mais um presídio para a cidade, matéria de capa do Diário de Santa Maria. A prisão dos pobres é mais importante que suas conquistas.
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Por falar em pobre preso, o jornal (!?) A Razão traz matéria sobre o morador do Assentamento Carlos Marighela (zona oeste), Altamir Boita, que após uma polêmica com os seus vizinhos - no caso, os empresários do Distrito Industrial -, foi preso. Na sua casa, foi encontrada munição proibida. Me pergunto se ainda verei a notícia de que algum "ruralista" foi preso devido aos arsenais particulares que tanto gostam de ostentar. Ah, a diferença é que os fazendeiros têm armas para defender seu patrimônio. Sim, a propriedade. Ela dá direitos civis extras. O velho argumento de Locke...
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Deixando um pouco a Cratera e olhando para o mundo ao seu redor (sim, aqui não é apenas o centro do Rio Grande, mas do universo). O negócio mais lucrativo para as classes no poder, a guerra, não pára. O parlamento turco aprovou a invasão (outra!) do Iraque. Os "aliados" (agora que já mataram o povo e se adonaram do petróleo) desaprovam a atitude. Enquanto isso, aquele psicopata que governa os EEUU a mando da indústria bélica segue ameaçando o Irã. Não bastasse, os russos (antigamente conhecido como demônios) testam, com sucesso, seus mísseis transcontinentais.
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Dom Odilo Scherer, gaúcho e Arcebisbo de São Paulo, foi nomeado cardeal pelo chefe do Estado do Vaticano e representante (facista) de deus na Terra. Honraria duvidosa, do ponto de vista histórico, ser nomeado pelo Ratzinger.
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Novamente um ato político em uma Universidade foi terminado pela tropa de choque (a tropa da elite). Já está virando hábito. Mesmo na ditadura militar, as universidades eram espaço de resistência. Agora, a polícia é atirada para cima de professores e estudantes sem o menor pudor. É que eles estavam ocupando a universidade, tratava-se de ação de reintegração de posse movida pelos proprietários. Ah, a propriedade. De novo. Provavelmente é ela que justifica que madeireiros mantenham cerco a ambientalistas no Pará.

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Por outra lado, minha paixão infantil pela Xuxa retornou. É a segunda vez que isso acontece. A primeira foi quando assisti (por volta dos 12 anos) o filme Amor Estranho Amor. Agora, volto a me apaixonar pela rainha ao ver o quadro de seu programa em que ela fala a respeito da escola itinerante do MST aos seus baixinhos. Pelo jeito, a loira está querendo compensar o mal que fez aos cérebros da minha geração.

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Por fim, a prova incontestável de que o Juízo Final se aproxima é esta página da Folha Online. As manchetes:

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Imagens:
- foto da Av. Rio Branco: Cláudio Vaz/DSM
- Ratzinger de olho no agonizante João Paulo II: BBC
- cartaz do filme Amor Estranho Amor: Google

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O MST, a lei e os cidadãos de bem

No jornal crateriano A Razão, edição de 09/out, leio a carta indignada de um cidadão de bem. O advogado Marlon Adriano Balbon Taborda (não vá me processar!) escreve irresignado com a permissividade das autoridades locais em relação ao ato do MST na praça Saldanha Marinho (noticiado aqui), no artigo intitulado "O MST, o som e a lei":

Em Santa Maria existe legislação vigente que prevê a não utilização (ou proibição) de carros de som no centro e arredores da cidade? A pergunta é feita pelo fato de que no dia 4 de outubro de 2007, próximo ao horário do meio-dia, diversos cidadãos santa-marienses presenciaram os seres que estavam se dizendo representar o Movimento Sem Terra (MST) manifestarem-se, sendo que tinham um veículo de som que emitia um estridente e altíssimo som que invadia a privacidade e os aparelhos auditivos dos cidadãos de bem que estavam em via pública. Por ironia do destino, tal veículo não foi apreendido. (grifos meus)

Os outros dois parágrafos seguem no mesmo tom. Respeito a opinião do ilustre futuro colega. Aliás, admiro qualquer pessoa com coragem de expor publicamente suas opiniões (assinando embaixo), sejam elas quais forem. Contudo, nesse texto me chama a atenção um elemento: a forma como o autor faz a diferenciação entre os integrantes do MST e os cidadãos de bem. Quem são os tais "cidadãos de bem", aos quais a opinião conservadora sempre se refere? Em algumas ocasiões é acrescentado um outro elemento à expressão: "cidadãos de bem que pagam seus impostos".

Membros do MST não são cidadãos de bem. Os sem-teto também não. Os marginalizados são o oposto disso. Pobre só é cidadão de bem se agüentar calado a exploração, a exclusão e o chicote. Cidadãos de bem só podem participar do "Movimento" Cansei.

A classe média reacionária usa esse auto-proclamado título como forma de diferenciação social. O cidadão de bem é um perene indignado. Indigna-se contra os impostos, contra o moleque que pede esmola, contra a carroça do catador que atrapalha o trânsito, contra os camelôs, contra o barulho, contra o Fome Zero e contra o passe livre. Acha-se injustiçado porque o uísque e os combustíveis subiram ou porque o final da novela não era o que esperava. Para o cidadão de bem, os ricos são trabalhadores e os trabalhadores são bandidos, arruaceiros ou burros. Integrantes de movimentos sociais são seres - algo que não chega a ser exatamente humano.
Afinal, para quem já privatizou a cidadania, o próximo passo é privatizar a humanidade.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Uma das maiores alterações estruturais no centro de Santa Maria nos últimos trinta anos foi a construção do Viaduto Evandro Behr (popularmente chamado de “Buraco do Behr”).

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Shopping Popular: o que pensar?

O plano da Prefeitura Municipal de remover os vendedores ambulantes para um espaço fechado de comercialização parece que vai se concretizar. Conforme matéria de ontem do Diário de Santa Maria, as obras no prédio do antigo Cine Independência estão a todo vapor, impulsionadas pela contrapartida financeira do Carrefour.

Sinceramente, não sei o que pensar sobre a remoção dos ambulantes para o chamado shopping popular. Não compartilho das opiniões higienistas, que querem as ruas vazias de todos os elementos humanos (veja meu comentário sobre a remoção dos cachorrões). O camelódromo no canteiro da Av. Rio Branco não me incomoda, embora reconheça os prejuízos urbanísticos decorrentes de suas atuais instalações. Penso que as condições poderiam ser melhoradas. A concentração dos vendedores no Cine Independência poderia ser essa melhoria?

Ainda não tenho uma opinião formada a respeito. Sei que os ambulantes preferem permanecer na rua, onde têm um contato mais direto com a população. Porém, há outro elemento a se considerar. O comércio informal baseia-se em algumas ilegalidades (ainda que amplamente aceitas pela sociedade), como o contrabando e a chamada pirataria. No shopping popular, será possível vender os mesmos produtos? E sem eles ainda será viável essa alternativa econômica?

Por esses fatores, inclino-me, por enquanto, a rejeitar a idéia. E tu, o que pensas?

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Entre uma foto e outra, trinta anos

No dia 17 de maio de 2008 será o sesquicentenário desta simpática cratera urbana que, hospitaleiramente, me acolhe. Cento e cinqüenta anos – convenhamos – não é muito para uma cidade. Santa Maria é uma adolescente. Uma linda adolescente, caprichosa, com os vícios e virtudes da idade.

Contudo, cento e cinqüenta anos encerram diversas gerações e muitas mudanças. O acampamento militar, o exílio dos índios missioneiros, o coração da rede ferroviária, a cidade universitária. Novamente exílio, agora da diversidade – combatida pelos proprietários segregadores, privatistas e higienistas.

Sim, um século e meio muda muita coisa. Mas não é necessário tanto para perceber isso. A historiadora (e minha amiga), Fernanda Cardozo, envia algumas fotos “nem tão antigas assim” de Santa Maria. São fotos da década de 70, ao que parece. Na medida do possível, publicarei aqui um comparativo dos locais fotografados. Entre uma foto e outra, trinta anos.
• Não obstante as minhas diligências e as da Fernanda para descobrir o(s) autor(es) das fotos antigas, este(s) permanece(m) ignorado(s). Se alguém, porventura, souber, tiver alguma pista, ou alguma suspeita, por favor entre em contato.
• Me propus a tirar as fotos dos mesmos locais retratados na década de 70, mas obter os mesmos ângulos mostrou-se impraticável devido às mudanças físicas da cidade.

sábado, 29 de setembro de 2007

E a Baixada Melancólica vibrou...

Os coloradinhos estão festejando. O Esporte Clube Internacional de Santa Maria/RS está na primeira divisão do futebol gaúcho, após abater, por 2 tentos a 1, o Esporte Clube Pelotas - adversário direto à vaga na série A do Gauchão 2008. Segundo as emissoras de rádio que transmitiram o jogo, o Estádio Presidente Vargas, mais conhecido como Baixada Melancólica*, há muito tempo não tinha um público tão grande.

A reportagem das emissoras locais flagrou ainda o deputado federal Paulo Pimenta (PT), em plena campanha para a prefeitura, na geral do Presidente Vargas. "Não poderia ter escolhido outro lugar para ver o jogo" - disse à rádio Imembuí.
Tristeza apenas por parte dos cerca de 3 mil torcedores que não conseguiram entrar no estádio, mesmo com o ingresso na mão. A Brigada Militar teve trabalho para impedir o arrombamento dos portões pela massa.

O outro time tradicional da cidade, o Riograndense**, passa por maus momentos. Clube fundado pelos ferroviários no auge da RFFSA, hoje enfrenta uma grande crise financeira. Segundo a tradição de Santa Maria, a rivalidade entre os dois times reflete - ou refletia - o conflito de classes da sociedade local. Enquanto o Periquito é conhecido como o time dos ferroviários e operários, o Interzinho (ou coloradinho) é o clube dos empresários locais.
Eu diria que o momento de um e outro refletem fielmente a situação das classes que, em tese, representam.
(*) Não conheço a origem da alcunha, mas, como vizinho do estádio, posso dizer que seria impossível nome mais apropriado.

(**) Mais conhecido por Periquito. Conta com minha irrevogável preferência, em relação ao interzinho.
• A foto do deputado Paulo Pimenta foi tirada da página da Câmara Federal.
• Matéria editada em 30-set-2007.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Quando o PT virou isso?

Em A Mosca Azul, Frei Betto nos conta a trajetória do Partido dos Trabalhadores de seu surgimento – quando da necessidade de uma representação institucional de um grande movimento emergente no final dos anos 70 – até sua chegada ao governo. Fala das mudanças que ocorreram antes e depois disso. Há pouco tempo, seguindo recomendação do Diário Gauche, li excelente análise da Marilena Chauí sobre as transformações recentes (e as nem tão recentes também) sofridas pelo PT.

Em ambos os textos, está presente um indisfarçável desencanto. Penso que esse é um sentimento comum de grande parte dos petistas, senão da maioria. A pergunta que nos ocorre é “quando (e como) nos transformamos nisso?” Foi o que me perguntei durante os últimos dias, quando a briga interna do PT de Santa Maria, entre os grupos do prefeito Valdeci e do deputado Fabiano Pereira, ganhou as páginas dos jornais. Brigando por espaço, os “caciques” – como a mídia já está os chamando – fizeram seus correligionários protagonizarem momentos verdadeiramente patéticos na Câmara de Vereadores (veja a novela toda no blogue do Claudemir Pereira).



Tudo isso quando se aproxima mais um Processo de Eleições Diretas (PED) do PT, no qual, mais uma vez, não há esperanças de maiores mudanças nos rumos do partido. Aliás, no PT, parece que as mudanças sempre são para pior.


• Foto do Deputado Fabiano Pereira (D) sacada da página do Pacto pelo Rio Grande;

• Foto do Prefeito Valdeci Oliveira (E) tirada da página da Prefeitura Municipal de Santa Maria.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Pelos caminhos da Cratera Urbana

Av. Borges de Medeiros (Bairro Noal/Centro)
R. Tuiuti (Bairro N. Sra. de Fátima)
R. Serafim Valandro (centro)
Av. Rio Branco (Centro)

Trav. São Pedro (Bairro Passo D'Areia)

R. Dona Luísa (Bairro Bonfim)

R. Cel Antero de Barros (N. Sra. do Rosário)


R. Quintino Bocaiúva (Bairro N. Sra. do Rosário)



R. Manoel Ribas (Vila Belga)

domingo, 26 de agosto de 2007

Mas tua cidade é assim?

Partida da comitiva santa-mariense, na Santa Marta (foto de Lauro Alves / DSM)

Na última sexta-feira o Presidente Lula esteve em Porto Alegre para dar a partida oficial ao Plano de Acelaração do Crescimento (PAC) no Estado do Rio Grande do Sul. Santa Maria, que irá receber nada menos que 128,1 milhões de reais para obras de saneamento e urbanização, esteve representada por uma grande comitiva de moradores da Nova Santa Marta, KM 2, KM 3, Canaã e outras vilas diretamente beneficiadas pelas verbas.
Embora o povo não tenha conseguido entrar na Fiergs para ver o Presidente, no portão da entidade os membros do MNLM e Central dos Movimentos Populares, fizeram sua festa de agradecimento. Aliás, uma recompensa mais que merecida, após tantos anos de luta. Cinco representantes, entre eles Cristiano Schumacher, líder do MNLM na cidade, participaram da solenidade, na qual estavam presentes, além de Lula, Dilma Roussef, Tarso Genro, o prefeito Valdeci e a governadora Yeda Crusius.

Mas o que mais me impressionou quando li cobertura do evento, foi o comentário da governadora quando a ministra-chefe da Casa Civil mostrou fotos dos rios poluídos e do Lixão de Santa Maria. Cutucando o ministro Tarso (que, apesar de são-borjense, tem forte ligação com a Cratera), Yeda questionou: "Mas tua cidade é assim?"

Ora, Lula, nas últimas eleições sofreu uma violenta derrota em Santa Maria, enquanto que Yeda teve aqui sua maior vitória eleitoral. No entanto, enquanto o governo federal trazia soluções para (alguns dos muitos) problemas da Santa Maria, Yeda descobria, surpresa, a realidade de um dos Municípios submetidos ao seu governo. Nada como o tempo.

Não sei o que Tarso respondeu, mas eu teria dito: "Sim, sra governadora. A cidade de Santa Maria é assim e quase todas as cidades gaúchas têm os mesmos problemas. Isso é o resultado de governos que cortam todos os 'gastos' sociais, como o seu, aliás."

Em tempo: a contribuição do governo do Estado às obras do PAC, em Santa Maria, se limitará ao repasse da Nova Santa Marta (área estadual) ao Município para que este gerencie a aplicação do recursos. Menos mal. Já imaginaram os recursos do PAC gerenciados no regime de caixa de Yeda?